Nictalopia é o nome dado pela medicina para a popular cegueira noturna. Embora seja uma condição rara, todo ser humano experimenta, em certos aspectos, a angústia de não se enxergar bem na baixa luminosidade, principalmente se partir de uma condição luminotécnica normal. Os fotorreceptores retinianos carecem de um tempo de latência para se adequarem à penumbra. Notadamente menos desconfortável é iniciar das trevas: qualquer onda de luz, nesse último caso, é uma fonte reveladora.
A penumbra é uma condição física muita mais confusa para o ser humano do que as trevas. Quem está na escuridão total sabe reconhecer qualquer fração de radiação eletromagnética que esteja rompendo a densidade do não ver. Quem vive em estado de penumbra, por outro lado, tem a certeza da interpretação do fenômeno e pouco senso estético da deformidade subjetiva que seus olhos observam, embora a claridade não seja sinônimo de compreensão. Nada novo na semiótica que Platão não tenha descrito.
No dia 13 de fevereiro de 2022 contemplamos os 100 anos da imaginação modernista em solo brasileiro. Entretanto, estamos atravessados por densas nuvens. Há pouco mais de 2 anos, por exemplo, o Ministro da Cultura fazia um discurso citando Joseph Goebbels:
“A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada.” Ricardo Alvim
100 anos se passaram e a pergunta é a mesma: o que é a arte genuinamente brasileira? Do ponto de vista da História da Arte e dos artistas, parece pouco provável que essa questão seja solucionada algum dia. Mas a horda lorpa, simplória, do brasileiro médio continua a querer demolir as construções não moralmente alinhadas ao positivismo da nossa bandeira e a colorir de verde e amarelo os escombros de cômodos estreitamente limitados do pensamento. O que é a cultura brasileira?
Parece pertinente, por exemplo, a euforia da descoberta de Lúcio Costa – nosso mais intelectualmente notável modernista no campo da arquitetura, quando das conclusões da visita à Sabará:
“Cabe-nos agora recuperar todo esse tempo perdido, estendendo a mão ao mestre-de-obras sempre tão achincalhado, ao velho ‘portuga’ de 1910, porque – digam o que quiserem – foi ele que guardou, sozinho, a boa tradição.”
Em um momento atravessado de subjetividades pouco compreendidas, a arte brasileira do século XXI também estaria sendo guardada por indizíveis personagens da vida cotidiana? Ou é o contrário, a nossa legítima arte seria aquela cooptada, mesclada aos grandes valores da indústria global e vendida em lotes sociáveis para a manada dos normais?
22por22 é um blog de crítica ao contemporâneo e análise do homem em suas múltiplas dimensões. 1922 por 2022 é, sobretudo, um sentimento de enorme tristeza e pessimismo em uma terra que estava mergulhada nas trevas no século passado, mas vislumbrava uma luz que poderia vir a ser. Do sentimento modernista nos resta pouco, a esperança taciturnamente sufocada por uma neblina que propaga visões distorcidas da realidade.
BRASIL, nome de vegetal.
Brasil, nome de vegetal. Celso Adolfo e Milton Nascimento