Linguagem e Catarse

A arte é o grau máximo de sofisticação da linguagem. Emocionar-se com uma obra é o evento catártico da dramaturgia interna humana: a catarse produz sentido no não-dito, explora dimensões do afeto nem sempre conhecidas pela racionalização. Não de toda a humanidade, é preciso pontuar. E, nesse aspecto, os questionamentos são mais importantes do que as considerações.

A capacidade de subjetivação artística pode ser mal desenvolvida, tal como acontece com qualquer outro distúrbio de linguagem? 

Valorizar as dúvidas pode favorecer análises mais aprofundadas do comportamento e da psiquê. Excluindo as deficiências de percepção sensorial, parece evidente que uma dificuldade de deslocar, ou associar, a significância da obra para o afeto não nominado deve, rotineiramente, interferir em mecanismos mais primitivos de autopercepção e socialização.

Não se trata aqui da psiquiatrização da vida cotidiana, mas de uma possível redução simbólica que pode desconectar o indivíduo do todo compartilhado e limitar a compreensão de seus sentimentos simplesmente pela incapacidade de identificação, nomeação ou ressignificação dos mesmos.

Ora, se há prejuízo de subjetivação, se o próprio sentimento pode ser inominável e não conhecido na consciência, impenetrável pela própria psicanálise, como poderia a arte (re) significar qualquer afeto? A catarse, dessa forma, torna-se impossível.

E, nesse momento, surge um paradoxo no estudo do homem: a religião. Pois se a arte não é universalmente experienciável, como a religiosidade pode ser? Ou não pode? O mais pragmático bronco dos homens não é invulnerável à catarse religiosa, pelo contrário, o primitivismo do pensamento – e a própria evolução – esteve atrelada ao desejo e imaginário místico.

Quem então é o sujeito para quem a arte é um monólito da incompreensão? 

Essas questões podem ajudar a entender o Brasil de 2022, notadamente o avanço do pentecostalismo, a decadência do catolicismo pastoral, arraigado no materialismo histórico, e a desvalorização da cultura, inclusive com apelos conservadores para uma revolução estética.

Quem é esse Brasil que é solo fértil para a religião? Que país sebastianista é esse, que não consegue chamar para si a responsabilidade do seu desenvolvimento?

Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos?

Para quem não é invulnerável à nenhuma das catarses mencionadas, uma dica de Stabat Mater com o Sílvio Viegas, da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais:

https://www.youtube.com/watch?v=4qTG5gLSy1k

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