Como arquiteto e urbanista, torna-se quase impossível desvincular o sofrimento humano do seu palco geográfico. A cidade, elemento de maior sofisticação do atrito social, por mais abstrata que possa delimitar suas fronteiras, induz o sujeito à finitude de vivências específicas, embora com multiplicidade de relações subjetivas. Ao mesmo tempo, reduz o mesmo indivíduo ao drama universal da morte.
Nesse sentido, apresenta-se de maneira elegante o deslocamento naturalista. A mina de carvão de Émile Zola ou o cortiço de Aluísio Azevedo são personagens. Sem elas, não se constrói nenhuma das outras, tampouco a narrativa. Existe a personalização do espaço e a animalização do homem. As questões universais se desenvolvem em um sequenciamento de caminhos restritos ao que é externo ao objeto, como se houvesse uma dedicação menor ao protagonismo individual e uma maior relação da liberdade com a própria política. A aproximação indesejada do fim e a emergência enigmática do segundo seguinte à existência enlaçam o drama e coroam a angústia da travessia.
Com esse interesse delimitado, vale a pena conhecer o cinema iraniano contemporâneo, sobretudo o trabalho de Bahman Ghobadi (em farsi: بهمن قبادی ; Irão, 1 de fevereiro de 1969). De origem curda, Ghobadi nasceu em uma cidade próxima à fronteira com o Iraque e a Turquia. Conviveu de perto com a necessidade de adaptações em uma sociedade ferida por incontáveis guerras e processos de invisibilização.
Para não cometer o enfadonho equívoco dos que apresentam um autor através de toda a sua obra perfilada, sugiro o início por:
Turtles Can Fly | Lakposhta Ham Parvaz Mikonand | کیسەڵەکانیش دەفڕن | Iran, 2004.
“Tartarugas Podem Voar” abraça a subjetividade das relações parenterais, da violência, da depressão, da morte desejada, da morte provocada e das vidas condenadas pelo espaço geográfico.



