• A especificidade da formação psicanalítica (ou a disputa pelo governo da Subjetividade)

    Estudar psicanálise no presente século é, antes de qualquer reducionismo que este ensaio possa – equivocadamente – oferecer, uma resistência ao cientificismo americano do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), publicado pela American Psychiatric Association (APA). Não obstante, cabe salientar que o valor, enquanto ferramenta universal, e as contribuições do DSM para a psiquiatria não estão em discussão. O que, de fato, pretende-se analisar é o lugar da psicanálise enquanto campo do saber e a estruturação da sua ética. Por outro lado, parece ser crucial, visto pela lente médica e citando Lauar, “recuperar a psiquiatria, a partir do seu impasse causal, permitindo pensar o embate excludente entre a ciência e a subjetividade. Da causalidade à verdade como causa, o sujeito, rejeitado pela ciência, retorna na psicanálise como o militante de uma psiquiatria na intimidade da cultura, permitindo que a ciência como discurso faça laço social e não se esqueça da clínica que lhe deu origem”. Sendo, dessa maneira, uma discussão que interessa ao psiquiatra e ao analista e que pode beneficiar toda a sociedade. 

     O cientificismo não é uma doutrina científica, mas uma visão de mundo, portanto com uma epistemologia filosófica, que coloca a ciência no centro absoluto do conhecimento, negando o valor e a validade de outras formas de discernimento e compreensão da realidade. Ciência e cientificismo não são pares iguais. Enquanto a ciência se satisfaz com a ampliação da realidade, mesmo em irreconciliáveis teorias fundamentais, vide que Einstein não refuta Newton, mas acrescenta um novo paradigma, sob nova perspectiva, o cientificismo reduz o objeto de análise ao quantificável, generalizável e reprodutivo. De maneira pueril, surge a objetivação da subjetividade e os enganos em que essa travessia pode se vergar a depender de quem discursa e decide o que é ou não científico. Ainda existe um engodo ainda maior em toda essa disputa: ciência é sinônimo de verdade? Quando um cientista diz que a psicanálise é uma pseudociência, portanto, uma quimera, ele não apenas demonstra a rigidez do seu pensamento, como evoca uma ciência pura, utópica e restritiva, que desqualifica o próprio lugar de fala do crítico, pois o que se consegue julgar a partir desse enunciado é uma questão muito incômoda ao interlocutor: “O que se quer, no fundo, quando se pretende deslegitimar um discurso de saber, diferente do seu?” pergunta o filósofo francês Michel Foucault. E ele mesmo responde: “Exercer poder”. E é nesse aspecto que a psicanálise ganha contornos de resistência, porque ela é menosprezada pelo cientificismo desde a sua fundação.

    Nessa perspectiva, o “Projeto para uma psicologia científica”, escrito por Freud em 1895, ocupa um lugar paradoxal na obra freudiana. Concebido como tentativa de fundar uma psicologia estritamente científica, ancorada nos modelos das ciências naturais do final do século XIX, o texto revela os limites desse ideal quando aplicado ao campo do subjetivo e do psíquico. Trata-se de um manuscrito inacabado, publicado postumamente, mas que revela, de maneira privilegiada, o momento de transição entre a neurologia e a formulação psicanalítica, expondo as tensões epistemológicas que atravessam a gênese da psicanálise. Não se trata de um trabalho apócrifo, nem do Freud neurologista, e parece pouco coerente a classificação de alguns autores que identificam o texto como “pré-psicanalítico”, pois parte dos conceitos fundamentais da psicanálise estão contidos no artigo. Porém, a maior importância – talvez – esteja no paradigma que se estabelece: a impossibilidade de uma ciência fisicalista conseguir delinear contornos para o novo campo do saber que estava sendo elaborado. Estabelece-se uma ampliação do campo científico e, não necessariamente, o da criação à parte de outro modus operandi de análise. O próprio Freud afirma: 

    “Em minha opinião, a psicanálise é incapaz de criar uma Weltanschauung por si mesma. A psicanálise não precisa de uma Weltanschauung; faz parte da ciência e pode aderir à Weltanschauung científica.” 

    O ponto de partida do texto é claramente naturalista, com o orador esforçando-se por estabelecer alguma comunicação efetiva com os seus colegas neurologistas e, embora o êxito em construir a teoria, Freud nunca conseguiu a unanimidade acadêmica, por exemplo, que julgava ter Charcot. O criador da psicanálise assume, sem maior problematização, que os fenômenos psíquicos devem ser explicados segundo os mesmos princípios que regem os fenômenos físicos: causalidade, quantificação e conservação de energia. Não se sabe se Freud realmente estaria empenhado nessa transmissão fisiológica ou se a oratória presente apenas estava se adequando ao público-alvo: os neurologistas e neurólogos da época. A hipótese de quantidades (Qη) e o princípio da inércia neuronal traduzem uma concepção mecanicista do psiquismo, segundo o qual o sistema tende a reduzir a excitação ao nível mais baixo possível e o funcionamento mental é pensado como um aparato destinado a descarregar essas excitações. Do ponto de vista filosófico, trata-se de uma adesão explícita ao positivismo e ao fisicalismo, predominantes na tradição científica oitocentista. Esse discurso é especialamente influenciado pela fisiologia de Helmholtz, Brücke e Du Bois-Reymond. Ao longo do texto, Freud propõe uma diferenciação entre sistemas neuronais — notadamente os sistemas φ (phi), ψ (psi) e ω (ômega) —, que desempenhariam funções distintas no processamento da excitação, na memória e na consciência. O sistema φ estaria ligado à recepção direta dos estímulos externos, o sistema ψ, à formação de traços mnêmicos e o sistema ω à qualidade consciente da experiência. Essa tentativa de articular memória, percepção e consciência em termos neurobiológicos antecipa, ainda que de modo rudimentar, problemas que Freud retomará mais tarde sob uma linguagem metapsicológica. 

     Para sermos justos, a psiquiatria americana nem sempre demonstrou hostilidade à psicanálise. O próprio DSM I e o DSM II fazem parte de uma corrente doutrinária denominada “Psiquiatria Psicodinâmica”, marcadamente influenciada pela teoria freudiana. A revolução biomédica e a objetivação diagnóstica iniciaram-se no DSM III (1980). A justificativa para a mudança filosófica central, com ruptura do modelo psicodinâmico para a adoção neutra quanto à teoria etiológica (teoria agnóstica) quando não coloca a psicanálise no polo oposto da medicina, tenta deslegitimar o seu discurso. Desse ponto em diante, a estatística tornou-se mestra da psiquiatria. Até a chegada do DSM V, ainda contemplaríamos, por exemplo, a dissolução do Eixo IV do DSM III, abolido porque as variáveis, predominantemente da relação do sujeito com o outro, não eram passíveis de mensuração e generalização como sistemas fechados, como quer a psiquiatria americana. Iniciou-se uma falta de crítica às bases culturais e normativas dos diagnósticos. Retiraram para negar a vivência e a subjetividade, como se não importasse a relação do objeto com o fenômeno. De repente não existia mais nenhuma histérica no mundo. O que houve com elas? Para muitos críticos, não existe neutralidade filosófica e, se voltarmos em Foucault ou Marx, e pensarmos na relação de poder entre o discurso psiquiátrico e a cultura contemporânea, o que poderíamos vislumbrar? Qual é a ameaça que a escuta psicanalítica oferece? 

     No cerne dessa discussão encontramos a noção de sintoma, sinto-mal, como aponta Antônio Quinet. Dentre outras elocubrações, está o mal-estar da relação do sujeito com o outro e com a cultura. Tendo em vista o nosso tempo, a era da pós-verdade, o sintoma surge como não adaptação do indivíduo à realidade. Esse é um ponto fundamental, pois na pós-verdade, o que se sente ou acredita torna-se mais importante que o fato comprovado, gerando “verdades” subjetivas. Questiona-se a validade de especialistas, ciência e instituições tradicionais, abrindo espaço para narrativas alternativas. Surge, nesse contexto, a patologização da vida cotidiana, pois o desejo não encontra limites imagináveis na fantasia de um real possível. Não se pode ter tristeza, cansaço ou qualquer limitação à performance. O sujeito é aquilo que produz, o que se afasta disso torna-se doença.  

     Pensando em desejo – (Wunsch, em alemão, significando aspiração) – que é um conceito central que se diferencia de necessidades e demandas, sendo uma força inconsciente que surge de uma falta fundamental, uma ausência original, nunca totalmente preenchível, circulando entre o que se é e o que se quer ser, podemos supor que na fantasia de realidade contemporânea, o desejo deve ser cumprido. Não existem limites para o gozo, portanto, o sinto-mal também não pode existir. Mas ele existe e incomoda. Nesse caso, o modelo biomédico não traz outra alternativa que não a eliminação do sintoma.  

     A redução do sofrimento humano, ou melhor, da condição humana, está intimamente relacionada com a evolução neoliberal e o desenvolvimento capitalista de produção. Está melancólico, deprimido? Fluoxetina, sertralina, venlafaxina, desvenlafaxina! Está maníaco? Lítio, divalproato de sódio, carbamazepina. Que tal um antipsicótico como adjuvante? Haloperidol, risperidona, paliperidona. Acaso o sinto-mal estiver refratário, vamos fazer uma eletroconvulsoterapia! Se nada resolver, vamos usar cetamina! O sinto-mal não pode existir. Eu posso me completar, eu completo o outro, não existe espaço para o vazio e nem tempo para lidar com o rochedo da castração. Aliás, que bobagem achar que o meu falo não tem poder suficiente para se satisfazer e gozar com a completude.  

     Em suma, a pseudo-onipotência do sujeito interessa ao detentor dos meios de produção, porque o que está sendo tratado não é o existir, mas o produzir humano. Nesse aspecto, a psicanálise não tem qualquer função que interessa à esta sociedade organizada na desigualdade. Silenciar o medo, a angústia ou qualquer sintoma é, antes de tudo, certificar-se de que o sujeito não perceba tudo aquilo que é estrutural nas suas relações sociais e que fomenta o adoecimento psíquico. Citando Karl Jasper, importante nome da fenomenologia:

    É necessário entender a doença a partir do existir humano e não o seu contrário, o homem a partir da doença.“. 

     Esclarecido, ainda que minimamente, a relação da subversão psicanalítica e o lugar de fala dos seus algozes fisicalistas, cabe mencionar a ética da psicanálise, porque erroneamente poder-se-ia pensar que a teoria freudiana tenha trilhado uma epistemologia filosófica, mas o próprio Freud explica: 

    A psicanálise não é, como as filosofias, um sistema que parta de alguns conceitos básicos nitidamente definidos, procurando apreender todo o universo com auxílio deles, e, uma vez completo, não possui mais lugar para novas descobertas ou uma melhor compreensão. Pelo contrário, ela se atém aos fatos do seu campo de estudo, procura resolver problemas imediatos da observação, sonda o caminho à frente com auxílio da experiência, acha-se sempre incompleta e sempre pronta a corrigir ou modificar suas teorias.”. 

    A ética psicanalítica não se fundamenta em normas universais de conduta, tampouco em ideais de bem-estar ou adaptação social, mas na relação do sujeito com o desejo e com a verdade do inconsciente. Desde Freud, a psicanálise se orienta por uma ética que implica a assunção subjetiva diante do que emerge do inconsciente, como expresso na formulação lacaniana:

    “Onde Isso estava, Eu devo advir.”

    Essa proposição indica que o tratamento analítico não visa à eliminação do conflito psíquico, mas à possibilidade de o sujeito responsabilizar-se por ele. Lacan radicaliza essa perspectiva ao afirmar que a ética própria da psicanálise não se orienta pelo bem, pela felicidade ou por critérios morais, mas pela posição do sujeito em relação ao seu desejo. Segundo o autor, “a única coisa da qual se pode ser culpado é de ter cedido de seu desejo”. Assim, a ética psicanalítica recusa a moralização da clínica e sustenta uma prática orientada pelo desejo, reconhecendo o real como um ponto de impossibilidade que escapa a qualquer normatividade. A limitação da natureza humana é a grande ameaça para a sociedade do espetáculo e do cansaço.

  • Cinema Iraniano: Bahman Ghobadi

    Como arquiteto e urbanista, torna-se quase impossível desvincular o sofrimento humano do seu palco geográfico. A cidade, elemento de maior sofisticação do atrito social, por mais abstrata que possa delimitar suas fronteiras, induz o sujeito à finitude de vivências específicas, embora com multiplicidade de relações subjetivas. Ao mesmo tempo, reduz o mesmo indivíduo ao drama universal da morte.

    Nesse sentido, apresenta-se de maneira elegante o deslocamento naturalista. A mina de carvão de Émile Zola ou o cortiço de Aluísio Azevedo são personagens. Sem elas, não se constrói nenhuma das outras, tampouco a narrativa. Existe a personalização do espaço e a animalização do homem. As questões universais se desenvolvem em um sequenciamento de caminhos restritos ao que é externo ao objeto, como se houvesse uma dedicação menor ao protagonismo individual e uma maior relação da liberdade com a própria política. A aproximação indesejada do fim e a emergência enigmática do segundo seguinte à existência enlaçam o drama e coroam a angústia da travessia.

    Com esse interesse delimitado, vale a pena conhecer o cinema iraniano contemporâneo, sobretudo o trabalho de Bahman Ghobadi (em farsi: بهمن قبادی ; Irão, 1 de fevereiro de 1969). De origem curda, Ghobadi nasceu em uma cidade próxima à fronteira com o Iraque e a Turquia. Conviveu de perto com a necessidade de adaptações em uma sociedade ferida por incontáveis guerras e processos de invisibilização. 

    Para não cometer o enfadonho equívoco dos que apresentam um autor através de toda a sua obra perfilada, sugiro o início por:

    Turtles Can Fly | Lakposhta Ham Parvaz Mikonand | کیسەڵەکانیش دەفڕن |  Iran, 2004.

    “Tartarugas Podem Voar” abraça a subjetividade das relações parenterais, da violência, da depressão, da morte desejada, da morte provocada e das vidas condenadas pelo espaço geográfico.

  • Linguagem e Catarse

    A arte é o grau máximo de sofisticação da linguagem. Emocionar-se com uma obra é o evento catártico da dramaturgia interna humana: a catarse produz sentido no não-dito, explora dimensões do afeto nem sempre conhecidas pela racionalização. Não de toda a humanidade, é preciso pontuar. E, nesse aspecto, os questionamentos são mais importantes do que as considerações.

    A capacidade de subjetivação artística pode ser mal desenvolvida, tal como acontece com qualquer outro distúrbio de linguagem? 

    Valorizar as dúvidas pode favorecer análises mais aprofundadas do comportamento e da psiquê. Excluindo as deficiências de percepção sensorial, parece evidente que uma dificuldade de deslocar, ou associar, a significância da obra para o afeto não nominado deve, rotineiramente, interferir em mecanismos mais primitivos de autopercepção e socialização.

    Não se trata aqui da psiquiatrização da vida cotidiana, mas de uma possível redução simbólica que pode desconectar o indivíduo do todo compartilhado e limitar a compreensão de seus sentimentos simplesmente pela incapacidade de identificação, nomeação ou ressignificação dos mesmos.

    Ora, se há prejuízo de subjetivação, se o próprio sentimento pode ser inominável e não conhecido na consciência, impenetrável pela própria psicanálise, como poderia a arte (re) significar qualquer afeto? A catarse, dessa forma, torna-se impossível.

    E, nesse momento, surge um paradoxo no estudo do homem: a religião. Pois se a arte não é universalmente experienciável, como a religiosidade pode ser? Ou não pode? O mais pragmático bronco dos homens não é invulnerável à catarse religiosa, pelo contrário, o primitivismo do pensamento – e a própria evolução – esteve atrelada ao desejo e imaginário místico.

    Quem então é o sujeito para quem a arte é um monólito da incompreensão? 

    Essas questões podem ajudar a entender o Brasil de 2022, notadamente o avanço do pentecostalismo, a decadência do catolicismo pastoral, arraigado no materialismo histórico, e a desvalorização da cultura, inclusive com apelos conservadores para uma revolução estética.

    Quem é esse Brasil que é solo fértil para a religião? Que país sebastianista é esse, que não consegue chamar para si a responsabilidade do seu desenvolvimento?

    Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos?

    Para quem não é invulnerável à nenhuma das catarses mencionadas, uma dica de Stabat Mater com o Sílvio Viegas, da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais:

    https://www.youtube.com/watch?v=4qTG5gLSy1k

  • Outra Semana de 22

    Nictalopia é o nome dado pela medicina para a popular cegueira noturna. Embora seja uma condição rara, todo ser humano experimenta, em certos aspectos, a angústia de não se enxergar bem na baixa luminosidade, principalmente se partir de uma condição luminotécnica normal. Os fotorreceptores retinianos carecem de um tempo de latência para se adequarem à penumbra. Notadamente menos desconfortável é iniciar das trevas: qualquer onda de luz, nesse último caso, é uma fonte reveladora.

    A penumbra é uma condição física muita mais confusa para o ser humano do que as trevas. Quem está na escuridão total sabe reconhecer qualquer fração de radiação eletromagnética que esteja rompendo a densidade do não ver. Quem vive em estado de penumbra, por outro lado, tem a certeza da interpretação do fenômeno e pouco senso estético da deformidade subjetiva que seus olhos observam, embora a claridade não seja sinônimo de compreensão. Nada novo na semiótica que Platão não tenha descrito.

    No dia 13 de fevereiro de 2022 contemplamos os 100 anos da imaginação modernista em solo brasileiro. Entretanto, estamos atravessados por densas nuvens. Há pouco mais de 2 anos, por exemplo, o Ministro da Cultura fazia um discurso citando Joseph Goebbels:

    “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada.” Ricardo Alvim

    100 anos se passaram e a pergunta é a mesma: o que é a arte genuinamente brasileira? Do ponto de vista da História da Arte e dos artistas, parece pouco provável que essa questão seja solucionada algum dia. Mas a horda lorpa, simplória, do brasileiro médio continua a querer demolir as construções não moralmente alinhadas ao positivismo da nossa bandeira e a colorir de verde e amarelo os escombros de cômodos estreitamente limitados do pensamento. O que é a cultura brasileira?

    Parece pertinente, por exemplo, a euforia da descoberta de Lúcio Costa – nosso mais intelectualmente notável modernista no campo da arquitetura, quando das conclusões da visita à Sabará:

    “Cabe-nos agora recuperar todo esse tempo perdido, estendendo a mão ao mestre-de-obras sempre tão achincalhado, ao velho ‘portuga’ de 1910, porque – digam o que quiserem – foi ele que guardou, sozinho, a boa tradição.”

    Em um momento atravessado de subjetividades pouco compreendidas, a arte brasileira do século XXI também estaria sendo guardada por indizíveis personagens da vida cotidiana? Ou é o contrário, a nossa legítima arte seria aquela cooptada, mesclada aos grandes valores da indústria global e vendida em lotes sociáveis para a manada dos normais?

    22por22 é um blog de crítica ao contemporâneo e análise do homem em suas múltiplas dimensões. 1922 por 2022 é, sobretudo, um sentimento de enorme tristeza e pessimismo em uma terra que estava mergulhada nas trevas no século passado, mas vislumbrava uma luz que poderia vir a ser. Do sentimento modernista nos resta pouco, a esperança taciturnamente sufocada por uma neblina que propaga visões distorcidas da realidade.

    BRASIL, nome de vegetal.

    Brasil, nome de vegetal. Celso Adolfo e Milton Nascimento